domingo, 24 de julho de 2011

IDENTIDADE


Pr. José Wellington Bezerra da Costa Neto
Quem viu o programa "CQC - Custe o que custar" da segunda-feira, 13/06, viu uma interessante reportagem, em que dez ou doze pessoas aleatoriamente escolhidas entre o público foram reunidas numa sala e receberam "mapas astrais", contendo supostamente características pessoais, a fim de identificarem se as tais características correspondiam às suas. Praticamente todas as pessoas confirmaram que os "mapas" recebidos pertenciam a si.

Qual não foi o espanto dos participantes ao receberem a informação de que todos os "mapas" eram idênticos. A seguir, receberam então a informação de que o "mapa" em questão, distribuído em cópias para todos, continha, na verdade, as características de um dos participantes, desafiando-se então ao "dono" do mapa, que se manifestasse. Nesta segunda etapa três indivíduos se apresentaram, afirmando ter absoluta certeza que os "mapas" referiam-se a si. Por fim, os produtores do programa informaram aos participantes que na verdade o dito "mapa astral" trazia as características do ex-presidente americano George W Bush.



O que me causou espanto nesta reportagem foi o fato dela diagnosticar um mal de nosso tempo. O que sobressai é a falta de identidade própria dos participantes do teste, falta esta que ocasiona o identificar-se com quaisquer características às quais sejam induzidos, ou seja, caráter absolutamente volúvel e influenciável, falta de individualidade e autenticidade.

É bom também anotar que os indivíduos foram escolhidos, como já dito, aleatoriamente na sociedade, ou seja, revela-se então um padrão de comportamento social contemporâneo. Aliás, não há muito espanto no que estamos destacando, já que penso que todos já ouviram a expressão "sociedade de massa", que se refere à padronização de aspectos da vida de todos.

Considerando que a igreja está imersa no mundo, como esta realidade afeta a cristandade?

A Igreja de Cristo em geral sofre a mesma crise de identidade. Talvez um dos grandes motivos desta crise seja a característica de nossa atualidade de estereotipar todas as instituições, e o problema é a Igreja aceitar e amoldar-se a estes estereótipos.

Em geral as Igrejas Cristãs são identificadas principalmente pelos costumes que "impõe" a seus membros, e por isto são divididas em conservadoras e liberais. É triste verificar esta forma de identificação, que superficializa tanto a vida cristã. A rigor a distinção correta entre "conservadores" e "liberais" refere-se a correntes teológicas que se contrapõem no que respeita à crença de que a Bíblia seja, em todos os seus recônditos, a Palavra de Deus (conservadores); ou que apenas a contenha, ou seja, apresente relatos históricos e narrativas exclusivamente humanas, e até mitológicas, que nada tem de divinos, isto é, a Palavra de Deus deve ser garimpada de parcelas inspiradas do conteúdo da Bíblia.

Se combinarmos os dois critérios de classificação, teremos que a mais liberal das igrejas poderá ser (e sob este prisma, é saudável que o seja) a mais conservadora de todas.

Preocupa também que as Igrejas se identifiquem a partir de seus líderes. A respeito deste mal Paulo já vaticinou: "Pois dizendo um: Eu sou de Paulo, e outro: Eu de Apolo, não sois carnais? Afinal de contas, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e isto conforme o que Deus deu a cada um? Eu plantei, Apolo regou, mas Deus deu o crescimento. Pelo que, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento" (1 Co 3.4-7).

O que parece bem claro a partir do trecho citado é que o que realmente deveria identificar a Igreja enquanto corpo de Cristo seria nada mais ou menos que o crescimento proporcionado por Deus, e não o fato de ser conduzida por "Paulos" e "Apolos". E, aliás, este crescimento não é o numérico ou financeiro, mas sim na graça e no conhecimento de Deus (2 Pe 3.18 e Cl 1.10). Sim, porque na aritmética de Deus a qualidade vale mais que a quantidade.

Ensinando a Nicodemos, Jesus assim identificou a vida daquele que é nascido do Espírito: "O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim é todo aquele que é nascido do Espírito" (João 3.8). O que o Mestre estava ensinando era que a vida daquele que é nascido do Espírito é identificada pela impossibilidade de ser explicada de acordo com padrões e conceitos humanos (como o vento, cujo trajeto é icógnito), do não poder ser reduzida aos projetos e planos comumente traçados pelos homens. É uma vida tisnada pelo sobrenatural.

O trecho seguinte de Francis Chan expressa o que se quer dizer: "Eu não quero que a minha vida seja explicável sem o Espírito Santo. Eu quero que as pessoas olhem para minha vida e saibam que eu não poderia estar fazendo isso pelas minhas próprias forças" (Forgotten God, David C Cook, 2009, p. 142, tradução livre).

Era este também o sentido com que Jesus comparou os discípulos ao sal da terra, à luz do mundo, à cidade edificada sobre o monte (Mt 5.13-16).

Paulo pede, no fim da carta aos Gálatas: "Finalmente, ninguém me inquiete, pois trago no meu corpo as marcas de Jesus" (Gl 6.17). As marcas de Cristo que identificam o cristão são como os traços de um indivíduo que o ligam a seus genitores. Obviamente que as "marcas de Jesus" são as notas do caráter de Cristo.

No famigerado episódio da negação de Pedro, vemos que numa das ocasiões em que ele é "acusado" de andar com Jesus, dizem que o "modo de falar" o identificava (Mt 26.73). Obviamente que no caso os "acusadores" se referiam ao seu sotaque galileu. Porém, que bom seria se pudéssemos ser hoje igualmente identificados pelo falar, sim, o falar as palavras de vida eterna como nosso Pai.

Enfim, poderíamos seguir adiante até soarmos cansativos, ressaltando quais as características identificam o cristão em meio a tempos tão conturbados (somente para tratar das "notas do caráter de Cristo" provavelmente uma biblioteca poderia ser escrita).

Mas, se eu fosse você procuraria por alguém cujo modo de viver não possa ser explicado por tudo que você, humanamente falando, viu até hoje; alguém que sobressai na multidão massificada de vidas estereotipadas e xerocadas; alguém cujas palavras "soem" diferentes, inspirem vida e proporcionem paz; alguém que tenha traços de caráter e personalidade tão impressionantes, que nunca poderiam ser considerados humanos; alguém que, para estabelecer um relacionamento com você, se importará bem pouco com a sua aparência, religião, denominação, líder ou guru.

Se você cruzar com alguém que tenha todas estas características, ou pelo menos parte delas, atenção! Permaneça próximo a ela, e aprenda o máximo que puder, porque estou bem certo que você encontrou alguém que se dispôs a permitir que Jesus instalasse nela uma fonte que jorra para a vida eterna (João 4.14).

Soli Deo Gloria!

José Wellington Bezerra da Costa Neto
 

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